Payload Logo
Cultura

Aos 67, ela abriu a primeira editora da cidade

Author

Helena Sarmento

Date Published

Marta Rezende passou trinta anos numa redação. Revisou textos de gente que virou nome de prêmio literário e de gente que nunca publicou nada além daquela única reportagem. Aos 66, saiu com uma caixa de papelão, um crachá desativado e a sensação de que tinha aprendido a fazer uma coisa só — e que essa coisa ainda servia.

Um ano depois, abriu a Editora Vasto num sobrado alugado no Bom Retiro. O primeiro catálogo tinha quatro títulos: dois romances, um livro de cartas e uma biografia de uma professora de piano que morreu sem nunca ter dado entrevista. Nenhum deles passou de 900 exemplares. Todos venderam.

A pergunta que ela ouve com mais frequência não é sobre dinheiro, nem sobre distribuição. É sobre idade. “Perguntam se não é tarde”, ela diz. “Tarde para quê? Tenho vinte e cinco anos de trabalho pela frente se eu quiser. Ninguém pergunta isso para um sujeito de quarenta que muda de área.”

O mercado editorial brasileiro fechou 2025 com queda de 4% em exemplares vendidos, mas com alta em selos independentes — 138 novos CNPJs registrados na categoria, o maior número desde 2014. Uma parte considerável foi aberta por gente com mais de 55 anos.

Na Vasto, o time tem seis pessoas. A mais nova tem 31, a mais velha, 74. Marta diz que essa é a única política de contratação que ela leva a sério: “Toda mesa precisa de alguém que já viu isso acontecer antes e de alguém que nunca viu nada.”