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Aprendi a programar aos 64. Não virei gênio — virei útil

Uma coluna sobre curiosidade tardia e paciência recente.

Por Jorge Amaral22 de julho de 2026 · 3 min de leitura · Curitiba
Aprendi a programar aos 64. Não virei gênio — virei útil
Foto: Rishabh Pammi / Unsplash

Comecei porque me irritei. Numa reunião de condomínio, o síndico projetou uma planilha com 400 linhas de rateio e disse que levava dois dias para fechar aquilo todo mês. Perguntei por que não automatizava. Ele respondeu que não sabia. Eu também não sabia, e essa foi a parte que me incomodou.

Tinha 64 anos, tempo sobrando e nenhuma ambição de virar programador. Queria entender uma coisa que todo mundo à minha volta usava sem pensar.

Quarenta minutos por uma vírgula

O primeiro programa que escrevi tinha quatro linhas e não funcionou. Passei quarenta minutos procurando o erro. Era uma vírgula fora do lugar. Fechei o computador com a certeza de que aquilo não era para mim, e voltei no dia seguinte porque a vírgula tinha ficado entalada.

Escolhi Python porque três pessoas diferentes recomendaram e porque o código se parece com inglês mal escrito, o que ajuda. Segui um curso gratuito de uma universidade americana, com legenda, em blocos de vinte minutos. Levei sete meses no que o cronograma dizia levar dez semanas. Não me atrapalhou em nada.

A lógica eu peguei rápido. O vocabulário é que me derrubou: terminal, diretório, ambiente virtual, dependência. Ninguém explica essas palavras porque quem ensina já esqueceu que um dia não sabia. Anotei todas num caderno pautado, com definição minha, em português. Tenho 61 páginas.

Vinte minutos travado, eu levanto e vou fazer outra coisa. Quase sempre a resposta chega enquanto lavo a louça.

A vantagem que a pressa não tem

Há uma coisa que aprendi tarde e que quem aprende cedo raramente tem: paciência com o próprio erro. Aos vinte anos, não entender uma coisa em dez minutos parecia um veredito sobre a inteligência da gente. Aos sessenta e quatro, é só terça-feira.

Adotei uma regra: vinte minutos travado, levanto e faço outra coisa. Quase sempre a resposta chega enquanto lavo a louça. Qualquer neurologista explica o mecanismo: o cérebro resolve melhor quando a gente para de apertá-lo — e parar assim é um luxo de quem não tem gerente cobrando entrega às cinco.

A segunda vantagem é a experiência anterior. Trabalhei trinta anos com processos, contratos e gente. Um sistema mal feito, para mim, tem cara conhecida: é o mesmo formulário absurdo que eu preenchia em 1994, agora com botão azul. Saber onde as coisas costumam dar errado no mundo vale tanto quanto saber a sintaxe.

Caderno com anotações à mão ao lado de uma caneta

Foto: Mike Tinnion / Unsplash

Para que serve, afinal

A planilha do condomínio virou um script de 120 linhas. Roda em onze segundos e faz o que levava dois dias. O síndico não entendeu como funciona e não precisa entender: aperta um botão, sai o PDF de cada unidade.

Depois vieram coisas menores e mais queridas. Renomeei e datei 3.400 fotos que meu pai deixou em três HDs, cruzando o nome dos arquivos com um caderno de anotações dele. Fiz um programa que me avisa quando abre vaga de consulta no convênio. Ajudei uma vizinha a recuperar os contatos de um celular velho.

Nada disso é impressionante para um profissional. Todos resolveram um problema real de alguém, o que é mais do que a maioria dos softwares consegue dizer de si.

Sou perguntado com frequência se vale a pena começar aos sessenta, e a pergunta sempre embute outra: começar para quê. Se for para mudar de carreira, não tenho como responder — não tentei. Se for para deixar de ser espectador da própria época, respondo sem hesitar que sim.

O caderno de 61 páginas continua na gaveta ao lado do computador. Escrevi na primeira folha uma frase que roubei de um professor: “intuitivo é só o nome que a gente dá para aquilo que já viu antes”. Recomendo copiá-la. Serve para software e serve para quase tudo.

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