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Ideias

O que a longevidade fez com a ideia de carreira

Trabalhar até os 75 deixou de ser exceção. Falta o mercado perceber.

Por Rui Barbosa Neto24 de julho de 2026 · 3 min de leitura · São Paulo
O que a longevidade fez com a ideia de carreira
Foto: Bethany Legg / Unsplash

Por muito tempo, a carreira teve forma de arco: subia dos vinte aos quarenta, chegava ao alto por volta dos cinquenta e começava a descer, mansa, rumo a uma aposentadoria que duraria oito, dez anos. Esse desenho envelheceu mais rápido do que as pessoas.

Quem chega hoje aos sessenta com saúde e vontade não tem oito anos pela frente. Tem, em média, mais de vinte. E vinte anos dão para um segundo ato inteiro, com contas a pagar, projetos em andamento e tédio suficiente para justificar um emprego.

O arco virou platô

A conta é simples e quase ninguém a faz. Um brasileiro que completa 60 anos hoje tem expectativa de viver mais duas décadas — e a de quem chega aos 60 com plano de saúde, escolaridade superior e nenhuma doença crônica grave é bem maior do que a média nacional. A aposentadoria deixou de ser um período e virou uma fase da vida, com subfases próprias.

O efeito prático é que a curva da carreira parou de descer. Ela se achata. Aos 63 anos, a maioria das pessoas não está em declínio de capacidade: está em declínio de convite. São coisas diferentes, e o mercado insiste em tratá-las como a mesma.

Há também um efeito de composição pouco discutido. Quem trabalha até os 72 em vez de parar aos 62 deixa o patrimônio intocado por uma década inteira, o que na prática dobra a folga financeira. É a diferença entre administrar a poupança e administrar o medo.

Cada um negocia sozinho a meia jornada e a data de saída. Tudo depende de um chefe específico ter tido uma boa ideia.

O currículo como cronômetro

O problema não está na cabeça de quem contrata — está no formulário. Boa parte dos sistemas de triagem ainda pede ano de conclusão do curso superior, campo que funciona como declaração de idade travestida de dado técnico. Some-se a isso o filtro de “até 10 anos de experiência”, comum em vagas de nível pleno, e o candidato de 61 anos é eliminado antes de qualquer conversa.

Quando a eliminação acontece na entrevista, ela chega embrulhada. “Perfil sênior demais para a estrutura”, “preocupação com o encaixe cultural”, “achamos que você ficaria subaproveitado”. São frases que não aparecem em nenhum processo trabalhista e resolvem o constrangimento de quem as diz.

O custo dessa triagem é medido raramente. Quando é, surpreende: o tempo médio para preencher uma vaga técnica especializada passou de 40 dias em vários setores, enquanto profissionais com exatamente aquela especialidade estão fora do mercado por terem passado dos sessenta.

Reunião de trabalho com profissionais de faixas etárias diferentes ao redor de uma mesa

Foto: Christina @ wocintechchat.com M / Unsplash

O que substituiria o arco

Três formatos de trabalho já funcionam bem onde foram testados, e nenhum deles consiste em esticar a jornada de sempre: a jornada reduzida com salário proporcional, que troca cinco dias por três sem perda de vínculo; o contrato de transferência de conhecimento, em que o profissional passa 18 meses formando substitutos; e a consultoria interna, uma figura que existe há décadas nas engenharias e quase não saiu de lá.

O Japão criou nos anos 1970 uma rede pública de centros que intermedeia trabalho de meio período para pessoas acima de 60, hoje com mais de 700 mil inscritos. Não é um modelo transplantável, mas prova um ponto: quando existe um canal desenhado para esse trabalhador, ele aparece — em número grande e depressa.

No Brasil, o desenho ainda é individual. Cada pessoa negocia sozinha sua meia jornada, sua data de saída, seu contrato como pessoa jurídica. Dá certo com frequência e é sempre precário, porque depende de um chefe específico ter tido uma boa ideia.

Nada disso resolve o caso de quem chega aos sessenta com o corpo gasto por um trabalho braçal e sem escolha nenhuma. Essa é outra conversa, mais urgente, e ela não se resolve com flexibilidade de jornada — se resolve com previdência.

Mas para a faixa enorme que está entre um extremo e outro, a pergunta prática é esta: o que fazer com os vinte anos que a estatística deu de presente e que ninguém ensinou a usar? Quem responder primeiro — empresa ou trabalhador — leva vantagem.

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