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Viagem

Três semanas de trem pelo interior de Minas

Um roteiro lento, com paradas onde ninguém desce.

Por Cecília Lund23 de julho de 2026 · 3 min de leitura · Belo Horizonte
Três semanas de trem pelo interior de Minas
Foto: Rafael Vianna Croffi / Unsplash

A viagem não tem pressa, e esse é o ponto. Em três semanas entre Belo Horizonte, o vale do Rio Doce e o sul de Minas, o trem parou em dezenas de estações onde raramente alguém desce — e foi justamente ali que a paisagem se abriu.

O roteiro sai barato por natureza. As três ferrovias percorridas somam menos de 400 reais em passagens. O que custa é o tempo, e a proposta desta viagem é gastá-lo de propósito.

Belo Horizonte a Cariacica, treze horas

O trecho principal é a Estrada de Ferro Vitória a Minas: 664 quilômetros entre Belo Horizonte e Cariacica, no Espírito Santo, percorridos em cerca de treze horas. A composição sai de manhã cedo e cruza o vale do Rio Doce a uma velocidade que permite ler as placas das estações e o nome das mercearias.

A poltrona da classe econômica custa pouco mais de setenta reais e reclina o suficiente. A classe executiva tem apoio de pernas e ar-condicionado mais previsível. Há um vagão-restaurante, mas o melhor da viagem é o que sobe pelas janelas nas paradas: queijo, biscoito de polvilho, café em garrafa térmica, tudo vendido em três minutos de plataforma.

Recomendo o lado esquerdo no sentido Vitória. É o lado do rio na maior parte do percurso, e é dele que se vê a sequência de pontes e o momento em que a mata fecha sobre a linha, pouco depois de Governador Valadares.

Chegar tarde também é uma forma de chegar bem.

A maria-fumaça de 1912

Em São João del-Rei, o trem histórico faz os doze quilômetros até Tiradentes puxado por locomotivas a vapor centenárias, algumas em operação desde a década de 1910. A viagem dura pouco mais de meia hora e circula às sextas, sábados e domingos — vale confirmar a escala antes de comprar passagem aérea ou rodoviária.

Antes de embarcar, reserve uma hora para o complexo ferroviário. A rotunda, com sua plataforma giratória, continua em uso e é operada à vista do público: dois funcionários empurram uma locomotiva de trinta toneladas com as mãos, e ela gira. É o tipo de coisa que nenhuma foto explica.

Em Tiradentes, o erro comum é voltar no mesmo dia. Dormir ali muda a cidade: às sete da noite os ônibus de excursão já foram embora e as ruas de pedra ficam para quem ficou.

Locomotiva a vapor parada na plataforma de uma estação antiga

Foto: Peaky_82 / Unsplash

O trem das águas e as cidades que sobraram

No sul do estado, o Trem das Águas liga São Lourenço a Soledade de Minas em catorze quilômetros de trilho — um passeio curto, de menos de uma hora, que serve de porta de entrada para o Circuito das Águas. É o trecho mais leve dos três e o mais adequado a quem viaja com joelho ruim.

De São Lourenço, Caxambu fica a 25 minutos de carro e guarda o parque de fontes mais bonito da região, com onze nascentes e um pavilhão de ferro do fim do século XIX. Cambuquira e Lambari completam o circuito. As pousadas cobram entre 180 e 320 reais a diária em baixa temporada, com café da manhã que dispensa o almoço.

A rotina que se instala não varia, e é ótima: caminhada de manhã no parque das águas, almoço demorado, tarde sem plano, e o trem no dia seguinte. Foi assim por nove dias.

Notas práticas. A melhor época é de maio a agosto: seco, frio de manhã, sem a chuva de tarde que fecha a paisagem. Leve blusa mesmo em dia de sol — o vale do Rio Doce esquenta ao meio-dia e despenca às seis. As estações históricas nem sempre têm rampa; nas três ferrovias, o embarque é feito por degraus altos, e ajuda pedir auxílio no guichê com antecedência.

E leve um livro que não seja bom demais. Em três semanas de janela, ele vai ficar aberto no colo a maior parte do tempo, marcando a mesma página.

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