A geração que reinventou o teatro amador em São Paulo
Nos porões da Bela Vista, uma cena que não pede licença.

O ensaio começa às sete e meia da noite num subsolo da rua Santo Antônio, na Bela Vista, sob um edifício comercial dos anos 1960. Há trinta cadeiras de plástico, dois refletores presos com abraçadeira e uma escada que todo mundo desce de lado. A média de idade em cena é 63 anos.
O grupo se chama Companhia do Porão e existe há sete anos. Nenhum dos onze integrantes vive de teatro. Todos ensaiam três vezes por semana.
O subsolo da rua Santo Antônio
A montagem em cartaz é uma leitura encenada de “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, cortada de duas horas e dez para setenta minutos. O corte foi feito pelo próprio elenco, em quatro reuniões que a diretora, Odete Bezerra, 69, descreve como “as mais violentas dos sete anos”. Ganhou a versão que preserva a linha da Madame Clessi.
O espaço é alugado por 380 reais o ensaio de três horas, rateados. A temporada, quando acontece, são oito sessões: quinta e sexta às 20h, sábado às 19h. A entrada custa 20 reais ou um quilo de alimento, e a bilheteria média fica em 640 reais por noite — o que cobre a sala, a luz e o café.
Nada disso é excepcional na cidade. O que mudou foi a escala: um levantamento feito por um coletivo de grupos da região central mapeou 34 companhias amadoras ativas nos distritos da Bela Vista, Consolação e República, e em 21 delas a maioria do elenco tem mais de 55 anos.
Aos vinte anos, eu tremia. Aos setenta, o pior que pode acontecer já aconteceu.
Estreias que esperaram quarenta anos
Dalva Ferrari trabalhou 28 anos numa agência bancária na avenida Paulista e subiu ao palco pela primeira vez aos 66. Fez teatro no colégio, casou aos 23, e diz que a frase que ouvia em casa era sempre a mesma: “isso não é profissão”. Nunca foi, no caso dela. Continua não sendo. “Só que agora ninguém precisa aprovar.”
Wilson Prado dirigiu ônibus na linha 875A por 31 anos. Entrou no grupo levado pela filha, que o inscreveu num curso livre sem avisar. Hoje faz o pai de Alaíde e cuida da luz. Sua contribuição técnica mais valorizada é prática: sabe consertar qualquer coisa que tenha fio.
A observação recorrente entre eles é sobre memória. Decorar texto ficou mais lento, todos admitem. Em compensação, ninguém mais tem medo de plateia. “Aos vinte anos, eu tremia. Aos setenta, o pior que pode acontecer já aconteceu”, resume Odete.

Foto: Zara Photo / Unsplash
Quem paga a conta
A economia dessa cena é frágil e razoavelmente transparente. Metade dos 34 grupos mapeados nunca acessou nenhum edital público. Dos que acessaram, a maioria entrou pela primeira vez durante as leis emergenciais de cultura, quando a exigência de contrapartida foi simplificada e a inscrição passou a caber num formulário de duas páginas.
Dinheiro, curiosamente, é o menor dos problemas. Falta sala. Espaços com alvará para receber público na região central são poucos e disputados, e um porão de subsolo com escada estreita não obtém licença. Por isso boa parte das temporadas acontece em centros culturais, igrejas e salões de sindicato — locais emprestados, com data marcada e sem garantia de repetição.
A Companhia do Porão fez as contas do ano: 14.800 reais de custo total, 11.200 de bilheteria, o resto do bolso. “É um hobby caro”, diz Odete. “Também é um hobby caro jogar golfe, e ninguém pergunta se o cara vai ficar rico com isso.”
A temporada de “Vestido de Noiva” estreia em setembro, num centro cultural da Bela Vista com 90 lugares. Os ingressos serão vendidos na porta, em dinheiro, porque a maquininha do grupo quebrou em maio e ninguém quis gastar com outra.
No fim do ensaio, às dez e meia da noite, os onze sobem a escada de lado, um de cada vez, e se despedem na calçada. Na terça tem outro. É essa a parte que eles não estavam dispostos a negociar.
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