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Sérgio, 71, corre maratonas porque odeia academia

Um retrato de teimosia bem administrada.

Por Jorge Amaral19 de julho de 2026 · 3 min de leitura · Porto Alegre
Sérgio, 71, corre maratonas porque odeia academia
Foto: Yufeng Mao / Unsplash

São cinco e quarenta da manhã na orla do Guaíba e faz oito graus. Sérgio Kunzler está de bermuda, blusa de manga longa e um gorro que a filha comprou por insistência. Vai correr doze quilômetros, como faz quatro vezes por semana desde 2013.

A explicação dele para as maratonas cabe numa frase e ele a repete sem constrangimento: detesta academia. “Nunca consegui ficar quarenta minutos olhando para um espelho levantando uma coisa e botando de volta no mesmo lugar.”

A rotina que não é negociável

O percurso é sempre o mesmo: sai de casa no bairro Menino Deus, entra na orla na altura da Usina do Gasômetro e segue até a Ponta do Melo, volta. Doze quilômetros, uma hora e dez em ritmo confortável. Nas terças, faz tiros de mil metros. No domingo, o longão de 22 a 30 quilômetros, dependendo do calendário.

Não usa relógio com pulseira cardíaca desde que quebrou o terceiro. Usa um cronômetro simples e conhece o próprio ritmo por respiração. “Se eu consigo falar uma frase inteira, está fácil demais. Se não consigo falar duas palavras, está errado. É esse o aparelho.”

Corre sozinho por escolha. Entrou num grupo de corrida em 2016 e saiu em quatro meses, porque o combinado era às seis e ninguém chegava antes das seis e vinte. “Eu não tenho mais tempo para esperar as pessoas.”

Eu não tenho mais tempo para esperar as pessoas.

A conta das provas

São catorze maratonas completas. A primeira foi aos 58 anos, em Porto Alegre, com o tempo de 4h47 e uma lesão no tendão de aquiles que o afastou por cinco meses. O melhor tempo veio aos 63: 3h58, também em casa. Depois dos 66, ele parou de perseguir marca. “Passei a correr para terminar. É outra corrida, e é mais divertida.”

Fez Berlim em 2024, com a mulher e a filha esperando no quilômetro 35 com uma banana e um cartaz constrangedor. Diz que o pior momento chegou no quilômetro 6, muito antes do muro dos 32, quando percebeu que estava correndo rápido demais por causa da multidão. “Prova grande engana. Você entra no ritmo dos outros e paga no fim.”

Gasta cerca de 4 mil reais por ano com a atividade, quase tudo em tênis: três pares por ano, trocados a cada 700 quilômetros, sem exceção. É a única despesa em que se recusa a economizar.

Par de tênis de corrida

Foto: Ryan Waring / Unsplash

O que o médico disse

O cardiologista que o acompanha há doze anos pede teste ergométrico anual e ecocardiograma a cada dois. Sérgio tem hipertensão controlada com um comprimido e colesterol na faixa alta do normal. Nada disso o impede de correr, e o médico é explícito ao dizer que o caso dele não é receita para ninguém.

Nas consultas, o assunto que mais se repete é o tendão. A recuperação muscular depois dos setenta é mais lenta, e a lesão mais comum entre corredores dessa faixa vem do excesso de volume, não da velocidade. Por isso ele faz musculação duas vezes por semana — a mesma academia que odeia, engolida como remédio, quarenta minutos, só perna e core.

A recomendação que ele repassa a quem pergunta é sempre a mesma e é chata: comece caminhando, faça avaliação antes, aumente 10% por semana no máximo, e trate dia de descanso como treino. “Todo mundo quer saber do tênis. Ninguém quer saber do descanso, que é a parte que faz o negócio funcionar.”

A próxima prova é em outubro, em Curitiba. Ele não pretende bater tempo nenhum. Pretende terminar de pé e comer um sanduíche de pernil depois, ritual que cumpre desde a primeira maratona e que a nutricionista aceitou negociar.

Perguntei até quando ele pretende correr. Respondeu com a única frase da manhã que soou ensaiada, e provavelmente era: “Até o dia em que caminhar for mais rápido. Aí eu caminho.” Depois olhou o cronômetro, disse que estava perdendo tempo com entrevista e saiu.

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