Seis Ponto Zero6.0
Entrevista

Aos 67, ela abriu a primeira editora da cidade

Depois de trinta anos revisando o trabalho dos outros numa redação, Marta Rezende decidiu que preferia publicá-los. O primeiro catálogo tinha quatro títulos e nenhum plano de negócios.

Por Helena Sarmento24 de julho de 2026 · 4 min de leitura · São Paulo
Aos 67, ela abriu a primeira editora da cidade
Foto: YJ Lee / Unsplash

Marta Rezende passou trinta anos numa redação. Revisou textos de gente que virou nome de prêmio literário e de gente que nunca publicou nada além daquela única reportagem. Aos 66, saiu com uma caixa de papelão, um crachá desativado e a sensação de que tinha aprendido a fazer uma coisa só — e que essa coisa ainda servia.

Um ano depois, abriu a Editora Vasto num sobrado alugado no Bom Retiro, entre uma confecção e um depósito de tecidos. Estrearam com dois romances, um volume de cartas e a biografia de uma professora de piano que morreu sem nunca ter dado entrevista. Nenhum passou de 900 exemplares. Todos venderam.

A planilha de sete linhas

Não havia plano de negócios. Havia uma planilha de sete linhas: tiragem de 900, custo de 11 reais e 40 centavos por exemplar, capa de 59 reais, e uma coluna intitulada “o que sobra”, que ficou vermelha durante catorze meses. A primeira distribuidora procurada recusou o catálogo em três parágrafos educados. Marta então imprimiu um cartão, pegou uma mala de rodinhas e visitou 22 livrarias a pé, da Vila Madalena a Santa Cecília, oferecendo consignação.

O livro que menos prometia foi o que mais vendeu. “Cartas de Idalina”, a correspondência entre duas irmãs separadas entre 1969 e 1979, uma em Recife e outra em Estocolmo, esgotou a primeira tiragem em cinco meses e foi reimpresso em 1.200 exemplares. A família tinha guardado os envelopes numa caixa de sapatos por quarenta anos, sem saber o que fazer com eles.

Marta atribui a escolha ao ofício antigo. “Passei trinta anos consertando o parágrafo dos outros. Sei exatamente onde um livro range”, diz ela, sem ironia. É a mesma frase que usa quando alguém a chama de estreante.

Tarde para quê? Tenho vinte e cinco anos de trabalho pela frente, se eu quiser.

Um mercado que encolhe e se multiplica

O setor editorial brasileiro fechou 2025 com queda de 4% em exemplares vendidos — o quarto ano seguido de retração. No mesmo período, foram registrados 138 novos selos independentes, o maior número desde 2014. Uma fatia considerável deles foi aberta por gente com mais de 55 anos, que traz da carreira anterior justamente o que falta a uma editora nova: rede de contatos e paciência com prazo.

O paradoxo se explica pelo custo de entrada. Impressão sob demanda e tiragens de 500 exemplares derrubaram o investimento inicial de centenas de milhares de reais para algo em torno de 40 mil. O gargalo mudou de lugar; imprimir ficou fácil. O trabalho agora está em fazer o livro chegar à mesa da frente da livraria e em receber por ele dentro do ano.

A Vasto trabalha com prazos de 90 a 120 dias para receber das livrarias e opera, segundo Marta, com três meses de fôlego no caixa. Ela chama isso de margem de teimosia. “É pouco. Mas é meu, e eu sei exatamente onde está cada real.”

Tipos móveis e uma antiga prensa tipográfica sobre bancada de madeira

Foto: Bruno Martins / Unsplash

A mesa de seis

A equipe tem seis pessoas. A mais nova, Priscila, tem 31 anos e cuida de projeto gráfico e das redes. O mais velho, Anselmo, tem 74, foi tipógrafo por três décadas e revisa as provas de página à caneta vermelha, deitado sobre a mesa como quem examina um mapa. Entre os dois, quatro pessoas na faixa dos 40 e 50.

Marta diz que essa é a única política de contratação que leva a sério: “Toda mesa precisa de alguém que já viu isso acontecer antes e de alguém que nunca viu nada. Se só tem um dos dois, você repete o passado ou repete o erro.”

As reuniões de pauta são às terças, às nove da manhã, e começam sempre igual: alguém lê em voz alta o primeiro capítulo de um original recebido na semana. Se ninguém pedir para continuar depois de três páginas, o original volta para a pilha. É um critério grosseiro, admite ela, e funciona melhor do que qualquer relatório de leitura.

O catálogo de 2027 terá seis títulos, e o que mais entusiasma Marta é uma antologia de contos assinados por estreantes acima de 60 anos. A chamada aberta recebeu 430 originais em dois meses. “Eu esperava uns quarenta”, ela diz. “Tem muita gente com uma gaveta cheia e nenhum endereço para mandar.”

Uma pergunta se repete mais do que todas as outras, e ela nunca trata de dinheiro nem de distribuição. Trata de idade. “Perguntam se não é tarde. Ninguém pergunta isso para um sujeito de quarenta que muda de área.” Do lado de fora do sobrado, o depósito de tecidos fecha às seis. A luz da editora costuma ficar acesa até as nove.

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