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Reportagem

Na fábrica de Joinville, o turno da experiência

Uma metalúrgica catarinense reativou 23 crachás de aposentados para treinar o chão de fábrica. Dezoito meses depois, o refugo na usinagem tinha caído pela metade.

Por Rui Barbosa Neto18 de julho de 2026 · 3 min de leitura · Joinville
Na fábrica de Joinville, o turno da experiência
Foto: Homa Appliances / Unsplash

O galpão 3 da metalúrgica fica no distrito industrial de Joinville e produz componentes usinados para compressores. Trabalham ali 240 pessoas em três turnos. Desde março do ano passado, 23 delas já haviam trabalhado ali antes — e se aposentado.

A empresa chama o programa de Turno da Experiência, nome que o pessoal do chão de fábrica achou pomposo e substituiu por outro, mais direto: a turma dos avôs. Ninguém se ofendeu.

Vinte e três crachás reativados

A ideia nasceu de um problema de calendário. Entre 2022 e 2025, 61 operadores com mais de vinte anos de casa se aposentaram, quase todos da usinagem e da ferramentaria, as duas áreas mais difíceis de repor. A empresa contratou, treinou e perdeu boa parte dos substitutos em menos de um ano.

O gerente industrial fez a conta que faltava: cada operador de centro de usinagem leva de nove a catorze meses até atingir produtividade e índice de refugo aceitáveis. Nesse período, custa mais do que rende. Perder um substituto no mês dez é jogar fora quase todo o investimento.

A solução foi procurar quem tinha saído. Das 61 pessoas contactadas, 34 responderam, 29 aceitaram conversar e 23 assinaram contrato. A idade média é 66 anos; o mais velho tem 73. Todos já recebiam aposentadoria; nenhum voltou para o turno da noite.

A gente documentou tudo o que dava. O resto estava na mão de quem já tinha feito.

O que a experiência resolve — e o que não resolve

Os números que a empresa autoriza divulgar são de dois indicadores. O refugo na usinagem caiu de 3,8% para 1,9% em dezoito meses. O tempo médio de setup de máquina, que estava em 47 minutos, foi para 31. Parte disso viria de qualquer programa sério de treinamento; a diretoria industrial atribui pelo menos metade ao formato.

A explicação técnica é banal e todo mundo que já trabalhou com máquina reconhece. Um procedimento escrito descreve o que fazer quando tudo está certo. Falha de ferramenta, vibração anormal, peça que sai fora de tolerância no terceiro lote e não no primeiro — isso está no ouvido de quem já viu acontecer, e o manual não alcança.

O que o programa não resolve também ficou claro. Não substitui documentação: a empresa aproveitou os primeiros seis meses para gravar em vídeo 180 procedimentos e reescrever 40 instruções de trabalho, com os próprios veteranos revisando. E não resolve capacidade produtiva, porque ninguém foi contratado para operar máquina em regime normal.

Bancada de oficina com ferramentas

Foto: Barn Images / Unsplash

O contrato que tornou possível

O desenho jurídico foi a parte mais demorada. Optou-se por contrato de trabalho por prazo determinado, com jornada de 20 horas semanais, quatro horas por dia, das 8h ao meio-dia, renovável. Salário proporcional ao da faixa que ocupavam mais um adicional de instrutor. A empresa recolhe todos os encargos normalmente.

A dúvida frequente era sobre a aposentadoria. Voltar a trabalhar com carteira assinada não suspende nem reduz o benefício de aposentadoria por tempo de contribuição — a contribuição volta a ser recolhida, sem gerar nova aposentadoria, o que é motivo legítimo de reclamação e não impede o contrato. O RH preparou uma cartilha de três páginas sobre isso porque, segundo a coordenadora, “era a primeira pergunta de todos, sempre”.

A jornada curta foi inegociável do lado dos contratados. Doze dos 23 recusariam a proposta se fosse turno cheio. “Eu voltei porque é meia manhã”, disse um ferramenteiro de 68 anos que passou 31 anos na casa. “Se fosse o dia inteiro, eu não voltava nem pelo dobro.”

O programa foi renovado para 2027 com meta de chegar a 35 contratados e estender o formato à manutenção elétrica, onde o gargalo de reposição é ainda maior. Duas outras empresas do polo industrial da cidade pediram para conhecer o desenho.

A avaliação mais interessante não veio da diretoria. Veio de um operador de 27 anos, contratado em 2024, que resumiu assim a diferença: “Antes eu ficava três dias travado esperando o supervisor ter tempo. Agora eu chamo o seu Nilton e ele fica ali comigo até resolver. Ele não tem mais nada para fazer às dez da manhã além de me ensinar.”

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