Quem contrata aos 62 — e por quê
Seis empresas explicam o que mudou nos processos seletivos.

Seis empresas de setores diferentes — uma rede de farmácias, uma metalúrgica, um banco digital, uma rede hoteleira, uma construtora e uma operadora logística — aceitaram explicar por que passaram a contratar profissionais acima dos sessenta. Nenhuma das seis mencionou responsabilidade social sem ser perguntada.
As respostas têm menos a ver com generosidade do que com planilha. Em quatro delas, a decisão partiu do financeiro antes de chegar ao RH.
O que aparece nas planilhas
Na rede de farmácias, com 1.100 lojas, o número que mudou a política foi a rotatividade. Entre repositores e balconistas de até 24 anos, o giro anual passa de 45%. Na faixa acima dos 55, fica abaixo de 10%. Como o treinamento inicial custa cerca de 2.300 reais por pessoa e leva seis semanas até a produtividade plena, a conta se inverteu sozinha.
A operadora logística chegou ao mesmo lugar por outro caminho: absenteísmo em dia de segunda-feira e ocorrências de segurança no pátio. “Ninguém aqui fica mais forte por ter sessenta anos. O que muda é que, às quatro da tarde de uma sexta, ele já não tem nada a provar”, disse o gerente de operações de um centro de distribuição em Extrema, Minas Gerais.
No banco digital, o gatilho foi o atendimento. Depois que a base de clientes acima de 60 anos passou de 900 mil, a fila do telefone virou o pior indicador da empresa. A contratação de 40 atendentes acima dos 55 derrubou o tempo médio de chamada em 22% e melhorou a satisfação medida ao fim da ligação. A explicação oferecida pela diretora foi desarmante: “Eles não têm pressa de desligar.”
Paramos de contratar potencial e voltamos a contratar competência.
O que os recrutadores mudaram
A mudança operacional mais comum foi burocrática: apagar da ficha de inscrição dois campos — a data de nascimento e o ano de formatura —, que na prática declaram a idade sob o disfarce de dado cadastral. Três das seis empresas fizeram isso; duas descobriram, ao fazê-lo, que o sistema de triagem vinha ordenando os candidatos por um desses campos sem que ninguém tivesse pedido.
A segunda mudança foi de linguagem nos anúncios. “Ambiente jovem e dinâmico”, “energia”, “vontade de crescer” saíram. Entraram descrições de tarefa e de horário. Uma das empresas mediu o efeito: a proporção de candidatos acima de 50 anos por vaga subiu de 4% para 19% sem nenhuma outra alteração.
A terceira foi estruturar a entrevista. Perguntas iguais para todos, na mesma ordem, com nota atribuída por critério, em vez da conversa livre em que a impressão pessoal domina. É a intervenção mais chata e a que mais mexeu no resultado.

Foto: National Cancer Institute / Unsplash
Onde ainda trava
O argumento do plano de saúde apareceu em cinco das seis conversas, sempre com desconforto. O custo per capita de um beneficiário acima de 59 anos é de fato maior, e a operadora cobra por isso. Duas empresas resolveram com coparticipação; uma segurou a contratação por causa disso e admitiu, com todas as letras, que é uma decisão que não se sustenta se for questionada.
A segunda trava é tecnológica e quase sempre presumida, não medida. “Achavam que ia dar trabalho treinar no sistema. Deu o mesmo trabalho de sempre”, disse a gerente de gente da rede hoteleira, que contratou 31 pessoas acima de 58 em dois anos, a maioria para recepção e governança.
A terceira é a mais difícil de nomear: a chefia direta. Um coordenador de 34 anos que precisa dar retorno de desempenho a alguém de 64 tende a evitar a conversa — e evitar a conversa é a forma mais eficiente de encurtar uma carreira. Duas empresas passaram a treinar especificamente isso.
Nenhuma das seis empresas tem meta de contratação por faixa etária, e todas foram enfáticas em dizer que não pretendem ter. O que existe é um conjunto de decisões pequenas — um campo removido do formulário, um anúncio reescrito, uma entrevista padronizada — cujo efeito somado é deixar de descartar candidatos por um motivo que ninguém defende em voz alta.
A pergunta que fica é por que demorou. A resposta mais honesta veio do diretor de RH da metalúrgica, e ele pediu para ser citado sem o nome da empresa: “Porque nunca ninguém tinha nos cobrado esse número. Cobraram, medimos, mudou.”
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