O plano que ninguém fez: os 30 anos depois da aposentadoria
Três economistas discordam — e todas fazem sentido.

A aposentadoria foi desenhada, no século passado, como um fim de linha curto: alguns anos de descanso depois de quarenta de trabalho. Hoje ela pode durar trinta — tempo suficiente para uma segunda vida inteira, com contas a pagar todo mês.
Procuramos três economistas com trajetórias diferentes e a mesma pergunta: o que fazer com esse horizonte. As respostas se contradizem em pontos importantes. Todas as três fazem sentido, e a razão disso é desconfortável.
A conta de trinta anos
Comece pelo tamanho do problema. Uma pessoa que para de trabalhar aos 62 anos e vive até os 90 precisa financiar 336 meses. Se o gasto for de 8 mil reais mensais em valores de hoje e a aposentadoria do INSS cobrir 3 mil, faltam 5 mil por mês — algo próximo de 1,7 milhão de reais em valor presente, sem contar inflação médica.
A regra dos 4% ao ano, popular nos Estados Unidos, sugere sacar essa fração do patrimônio anualmente com baixo risco de acabar o dinheiro em trinta anos. No Brasil, ela é ao mesmo tempo generosa e perigosa: os juros reais elevados tornam a meta mais fácil de atingir hoje, e a volatilidade da nossa política monetária torna arriscado supô-los permanentes.
Há ainda um item que quase nenhuma planilha doméstica inclui: os reajustes de plano de saúde. A partir da última faixa etária prevista em contrato, o valor sobe de degrau e nunca mais desce, e os reajustes anuais dos planos coletivos costumam superar a inflação geral com folga. Para muita gente, o plano de saúde vira a segunda maior despesa da casa depois dos 70.
Ninguém planejou direito para viver tanto — e essa é uma boa notícia mal administrada.
Três respostas incompatíveis
A primeira economista defende previsibilidade acima de tudo: converter parte do patrimônio em renda vitalícia, aceitando um retorno menor em troca da garantia de que o dinheiro não acaba antes da pessoa. “O risco que ninguém precifica é o de viver muito”, ela diz. “É o único risco em que você não pode se dar ao luxo de estar certo em média.”
A segunda discorda frontalmente e propõe outra coisa: não parar. Trabalhar meio período dos 62 aos 72, ainda que ganhando bem menos, é matematicamente devastador a favor da pessoa — encurta o período de saque em dez anos e alonga o de acumulação. “Renda do trabalho é a melhor renda fixa que existe”, resume. “E ela é indexada à sua vontade, não ao Tesouro.”
A terceira ataca a premissa. Os gastos de quem envelhece desenham uma curva em sorriso: altos entre os 60 e 72, quando ainda há viagem e disposição, baixa entre 73 e 82, e alta de novo depois, com custos de saúde e cuidado. “Guardar tudo para o fim é uma tragédia silenciosa”, diz ela. “Vejo gente de 84 anos com patrimônio intacto e uma lista de coisas que não fez aos 65 porque tinha medo.”

Foto: Chandra Oh / Unsplash
O ponto cego é o cuidado
As três concordam em um item e o apontam como o mais negligenciado: o custo do cuidado de longa duração. Um cuidador em regime integral, com escala legal e encargos, sai em várias capitais brasileiras por 6 a 9 mil reais mensais. Uma instituição de longa permanência de padrão médio, entre 5 e 12 mil. Nenhum dos dois é coberto pelo plano de saúde.
Como esse gasto costuma aparecer no fim da vida e por período incerto, ele desmonta qualquer planilha feita com média. A recomendação comum das três é reservar uma faixa do patrimônio explicitamente para isso, separada da renda mensal, e conversar sobre o assunto com os filhos antes de precisar — não depois.
A conversa, aliás, é a parte mais barata e a mais adiada. Onde estão os documentos, qual banco, qual senha, qual a vontade sobre tratamento. Um envelope com essas informações vale mais, no dia em que for necessário, do que meio ponto percentual de rentabilidade.
O consenso possível entre as três é modesto e útil: descubra quanto você gasta de verdade por mês, some doze meses de reserva líquida, separe a faixa do cuidado, e só então discuta rentabilidade. A maioria das pessoas faz na ordem inversa e começa pela escolha do fundo.
A pergunta que encerrou as três entrevistas foi a mesma. Perguntei o que elas próprias pretendem fazer. Duas responderam que pretendem continuar trabalhando, de alguma forma, enquanto o corpo deixar. A terceira riu e disse que já reservou dinheiro para uma viagem de trem pela Europa aos 74. Nenhuma das três mencionou parar.
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